Depois de um tempo

Iiiiiiiii, faz tanto tempo que eu não escrevo que nem sei o que dizer.

 

Também achei que ia ficar meio chato ficar falando sempre as mesmas coisas: a velejada foi assim, o mar estava assado, o passeio foi lindo, velejar é ótimo, às vezes nem tanto....;)

 

Bom, como um dos objetivos desse blog é compartilhar nossas experiências de novos velejadores então acho que é isso que eu tenho que falar - pelo menos tentar.

 

Temos dado velejadas ótimas. Pra falar a verdade, eu “mesma” estou meio devagar...Fiquei com um medinho do leme que estou perdendo, aos poucos. Não pensem que estou apavorada, nem que eu não gosto...mas tenho meu ritmo de canceriana...vou me adaptando, vou devagar, absorvendo, experimentando, observando ...

 

No fim de semana passado fomos para Itaparica. Sexta de tarde, malas prontas – minha bagagem está ficando cada vez mais racional  . Fomos correndo para o clube, não pode sair tarde para não chegar em Itaparica à noite. Motoramos até a bóia 4 para velejar sem stress e, sem brincadeira, já está ficando até chato escrever isso toda hora, mas foi a melhor velejada que já demos no Memê. Se todas as velejadas fossem assim eu já tinha jogado tudo pro ar e estaria dando a volta ao mundo! 

 

Tenho lido muitas histórias de velejadores que se aventuram pelo mundo e percebi nesses relatos como eles se referem ao mar e ao vento como se fossem entidades e não fenômenos da natureza e ao veleiro como se fosse um ser vivo e não um simples objeto feito para boiar e andar quando o vento sopra. Me lembro de achar que, por ingenuidade, as civilizações antigas tratavam a natureza com reverência: O Deus Sol, o Deus Vento, Deus chuva, Deus trovão, Deus raio...  Porém agora, que estou apenas no começo dessa experiência que é lidar de fato com os fenômenos da natureza, começo a me questionar se Mar e Vento não são realmente Deuses que nos chamam, nos guiam, nos dão broncas, nos lançam desafios e nos recompensam quando acham que merecemos e que nosso barco é o elo entre nós, seres humanos, mortais, pequenos seres conscientes e o universo, o todo, a natureza, o infinito. Quem já leu Sidarta lembra que o balseiro conversava com o Rio. Pois acho que é assim. A natureza nos ensina - se estamos atentos para absorver sua sabedoria. Velejar é aprender a lidar com esses fenômenos, mas será uma velejador de verdade quem souber decifrar o que a natureza tem a nos dizer. É quase como meditar, é entrar em comunhão com o universo.

 

Estou dizendo tudo isso porque tenho tido sensações novas, diferentes, fortes. Durante o caminho para Itaparica senti o vento e o mar nos empurrando, com delicadeza, com doçura, com carinho. O vento soprava forte num través folgado, o Memê nunca ficou tão feliz (sim, agora o Memê tem alma! ) pois o Mar também estava nos conduzindo como se fosse uma mão carinhosa nos embalando. Itaparica nos recebeu com um pôr do sol incrível.

Bom, daí eu acordei. Bricadeira, quem acordou foi Mamá que veio embalada no sono e com certeza teve sonhos maravilhosos.

 

Em Itaparica nos divertimos muito. Foi aniversário do Zé e comemoramos o fim de semana inteiro. Sexta à noite comidinhas e vinho no Memê . Sábado de manhã, a praia de Itaparica - um banco de areia que se forma na maré baixa e me fez acreditar que eu estava na Polinésia – depois, almoço no Táta : lambretas grelhadas com Champagne e muitas comidinhas boas. Muito papo, boas risadas,  um descanso, por do sol...e Jantar pra comemorar o aniversário do Zé. Na volta ao Memê, mais uma vez, me sinto próxima a natureza como nunca estive.

 

Deitamos no cockpit e ficamos batendo papo, olhado o céu...silêncio. Fui para outra dimensão – não é só o fato de estar na natureza...eu sempre gostei, gosto de viajar, gosto de mato, gosto de mar...mas estar ali, naquela situação, num barco...é muito diferente...é estar envolvido por completo...imagino como deve ser uma longa travessia...só o céu,o mar, o vento, seu barquinho bem pequenininho (por maior que ele seja) naquela imensidão...admiro muito quem faz isso. Não sei se um dia terei coragem. 

A chegada em Itaparica

Domingo.

 

Porque Domingo é sempre Domingo onde quer que você esteja? Parece que nos Domingos o clima muda – e nesse dia mudou de fato. Mas não é só o clima tempo, é o nosso clima, dia de ir embora, véspera de segunda,acabou a farra...sei lá, nunca gostei de Domingo. Valeu a experiência gastronômica: comemos Mocotó no mercado de Itaparica. É um hábito local comer mocotó de manhã. Imaginem os pescadores que acordaram as 4, foram pescar, já fizeram seu trabalho e chegam com fome, o que eles querem? Comida. Feijão, Mocotó, Rabada, essas coisas que nos dão “sustança”. Imaginem também quem vem da farra? Passou a noite em claro, tomou todas e está doido pra dormir mas está com fome e com um início de ressaca...Mocotó deve curar até pensamento. Pois é, eu já estava curiosa pra experimentar esse tal de Mocotó – aqui em Salvador tem um mercado de comida no Rio Vermelho que é o point da madrugada, saiu da gandaia e caiu no mocotó. Como nós não somos da farra nunca havia experimentado essa iguaria. Mas, voltando ao assunto, acordamos e ficamos esperando o Zé nos resgatar (eta falta que faz esse botinho!) – tudo bem, podíamos ter ido com o Memê até o Píer mas também não tínhamos muita disposição pra isso. Enfim, lá pelas 11 desembarcamos na cidade e Zé foi comer seu café da manhã: rabada com feijão. E eu que estava naquela curiosidade pois no dia anterior  havia sentido o cheirinho do Mocotó entrar pela veia,  resolvi experimentar. Confesso que só agora, depois de quase 40 anos de existência, estou aberta a experiências gastronômicas como essa. Encarar aquela tigelinha, com um monte de víceras – surpresa! não é só mocotó que vem quando a gente pede um mocotó – não é para qualquer um. Tem que ser iniciado na arte de provar coisas novas. E o pior é que, posso falar? ADOREI. Bom, na verdade só comi o mocotó. Não deu para encarar bucho, rins, intestino, pulmão, etc...experimentei tudo, mas para comer mesmo, só encarei o tal do mocotó que é muuito, muito bom acompanhado de um pirão que é feito com o caldo dessas carnes.

 

Ai, ai...estou escrevendo muito...saindo do assunto....mas, só para finalizar: a volta foi horrível! O tempo virou, o vento estava forte e a maré contra. Logo na saída quebrou uma peça da retranca. Íamos velejar só com a Genoa. Fizemos umas trapalhadas  e eu fiquei insegura, com medo. Se aquela peça quebrou assim tão fácil, quer dizer que o mastro daqui a pouco pode cair na minha cabeça  – incrível como podemos ser pessimistas quando não está tudo bem.  Mas, vamos lá, somos velejadores, não vou ficar com medo. O Bob também está estranho...o barco chacoalha, a Mariana já dormiu e eu quero ficar perto, proteger. Lembra aquela história do vento e do mar bonzinhos? Pois é, eles não estavam muito legais...ou estavam? Temos que aprender né? Se eles estivessem sempre bonzinhos, como íamos nos virar na adversidade? Os mestres também tem que ser duros, eu não faço isso todo dia com a Mariana? Dou umas duras pra ela aprender a ser safa na vida ?  OK. Fizemos tudo errado e, pior, desistimos (o Zé deu um monte de bronca  no Bob essa semana, he, he, ainda bem que eu não estava senão ia sobrar pra mim também...). Depois de algum tempo, algumas discussões entre eu e Bob com relação a rota, o vento apertou, começou a chover... o capitão decidiu motorar. Não fui eu não viu? Tudo bem, eu até que gostei. Fui dormir com Mamá na cabine, com o barco chacoalhando, aquele motor barulhento e o Bob foi de piloto de Popó...para ele foi bem chato...eu não posso dizer o mesmo...só acordei quando chegamos em Aratu...Não é que o mocotó deu um soninho bom?

 

 

 

 

 

Ancorando em Itaparica

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