São João

Finalmente fizemos o tão esperado cruzeiro de São João. Estávamos super ansiosos por esse primeiro passeio de verdade com o Memê.

Os preparativos foram bem trabalhosos. Principalmente para o Bob que é quem lida com os parafusos do barco - isso significa, motor, velas, estaiamento, cabos e mais um monte de coisas que a gente tem que ir fazendo quando compra um barco antiguinho (o nosso deve ter de 25 a 30 anos). Ele está curtindo fazer tudo isso, o problema é encaixar com um monte de trabalho, pacientes prá atender e 2 UTI´s cheias...enfim...eu também não podia ajudar muito. Primeiro porque, nas funções que cada um de nós tem no barco, os parafusos ficaram com o Bob (e menino sempre acha que parafuso é coisa de menino) e segundo porque fui para Sao Paulo a trabalho e só cheguei no dia de partirmos.

Preparando a Partida

A minha função era preparar o cardápio de bordo para os 4 dias que ficaríamos no mar. Como eu não estava em Salvador, não tive tempo nem de pensar além de também não saber direito o que comprar pois no nosso barco a geladeira é pequena e temos que echê-la de gelo, então não cabe muita coisa. O espaço também é restrito para mantimentos, água, enfim, tudo tem que ser bem pensadinho.

O Bob me pegou no aeroporto às 12:30 de quarta-feira (22 de junho), os planos eram de saírmos na quinta de manhã, então sugeri comprarmos todos os mantimentos, arrumar as coisas e irmos dormir no barco, assim já estaríamos lá na quinta de manhã bem cedo. A ansiedade estava a mil, o Bob mal conseguia raciocinar :).

Passamos no mercado, compramos o que vimos pela frente, e o que eu imaginava pudesse ser fácil de fazer e bom de comer. Odeio comida gororoba, miojo não é o meu prato predileto e também faço a linha alimentação saudável, então fui meio na louca comprando um pouco de frutas e verduras, massa, pães, frios, sucos, cereal e ok, vamos nessa! (a Mariana também é fácil, come de tudo e, essa sim, adora um minojo!)

Em casa foi tudo rápido, um banho, uns biquinis na mala e o Bob na minha orelha: - Vamos! Bóra! Tá na hora!

Tudo pronto, pegamos o Roque na casa dele e partimos para nossa aventura.

O roteiro já havia mudado um pouco, achamos que o Rio Paraguaçú era demais para a primeira viagem com a Mamá, então já havíamos decidido explorar um pouco a Baía de Todos os Santos.

Chegamos no barco e foi só arrumação. Enfiar tanta tralha dentro daqueles armarinhos parecia impossível mas em pouco tempo percebi que um barco tem muito mais buracos do que a gente imagina (no bom sentido).

Acho que todos dormimos mal. A ansiedade, misturada com um ambiente estranho, alguns pernilongos e uma pessoa que mal conhecíamos no barco fez com que a nossa noite não fosse das melhores. Foi uma longa noite mal dormida. Às 6 da manha estávamos todos em pé, preparando a saída. Bob tinha esquecido a carta náutica da Baía, teve que ir em casa buscar. O Roque ficou arrumando coisas no motor, tem que encher os tanques de água, tirar coisas, arrumar, ver...UFA! Lá vamos nós rumo a Itaparica , saindo lá pelas 10 da manhã....

Salvador-Itaparica

Foi uma velejada linda! Vento bom (de través, eu acho) um solzinho gostoso e ...começamos nosso curso intensivo de navegação a bordo do nosso barco. Eu já tinha escrito antes que o Roque é Skipper. Sabe tudo e foi disposto a nos ensinar. A Mariana adorou o balanço do mar, cada vez que começava, o soninho batia e ela dormia feito anjo, deu até inveja das sonequinhas que ela tirou no cockpit, com um travesseirinho e lençol, tomando aquele ventinho gostoso do mar. Em alguns momentos ficamos sem vento, o mar estava um pouco agitado e deu prá perceber que mesmo dentro da Baía de Todos os Santos o mar pode ser difícil e velejar ali é bem diferente do que na Baía de Aratu, que é uma piscina.

Foi emocionante ver Itaparica chegando. Até então, eu só tinha chegado ali pelo Ferry Boat que pára em Bom Despacho (um lugar bem feinho). Então ver aquela cidadezinha lindinha, sol de inverno, maré baixa, chegando...acho que não choramos porque o Roque estava a bordo. Deu prá ver o nó na garganta do Bob causado pelo reencontro dele com a infância - o lugar e os sonhos. Que lugar lindo!

Ancoramos junto ao pier que tem lá. Um lugar com toda a estrutura para o fundeio de embarcações. o Zé nos emprestou seu botinho e o motor, assim ficou fácil o embarque e desembarque nos lugares. No final da tarde fomos passear num banco de areia (paradise is here!) e andamos de botinho vendo os barcos que estavam por lá. Tinha um bem estranho, com uma bandeira que não soubemos identificar - mais tarde estávamos no nosso barco e ouvimos uma voz com sotaque britânico dizendo  - I bet you were asking yourselves what flag is that! Era a voz de um senhor Escocês (a cara do Sean Conery) super simpático que veio da Namíbia (sim, a bandeira era da Namíbia) com sua esposa Alemã. Eles estão há 2 meses viajando pelo Brasil - que aventura, que inveja!

À noite passeamos pela orla da cidade que, não fosse por uma construção recente de um flat tipo um trombolho no lugar errado, pareceria uma cidadezinha do século passado.Conseguimos com uma galera que estava pescando siri umas peles de frango e voltamos para o barco prá tentar pegar siri também (o Bob tinha passado numa loja de pesca e adquirido todos os apetrechos necessários e desnecessários  - a Mariana estava ansiosa para pegar um). Não deu siri nenhum, mas dormimos feito anjinhos, felizes por estarmos ali.

 

Itaparica-Salinas da Margarida

No dia anterior tínhamos decidido que iríamos conhecer Salinas da Margarida, uma cidade próxima à entrada do Rio Paraguaçu.

Acordei cedo, depois de uma noite bem dormida - o Bob, como sempre, já estava em pé. A manhã estava linda, o mar estava lindo...sentei no convés, fiz uns pranayamas e agradeci por estar ali. Daqui a pouco, Roque e Mariana também acordaram. Fizemos café e ficamos conversando um pouco, ouvindo as histórias do Roque - que é uma pessoa cheia delas e que adora contá-las - e o tempo foi passando. A primeira idéia era tomar um mingau de tapioca na cidade, mas acabou ficando um pouco tarde e o Roque decidiu que iríamos ter a primeira aula de navegação. Sentamos todos na mesa. Carta náutica, régua e lápis na mão (não tínhamos compasso) e começamos a descobrir como saber onde estamos, definir a latidue e longitude pela carta náutica, traçar rotas, marcar nosso roteiro desviando das partes rasas, pedras e outras cositas, enfim, foi uma aula e tanto. O professor disse que temos que aprender navegação sem o GPS(temos um no barco),pois numa emergência, o aparelho pifou, temos que saber nos virar... O Roque é um ótimo professor e nós, ótimos alunos :) pelo menos super dispostos a aprender. Assim, no final da aula, já havíamos traçado nosso rumo à Salinas e lá fomos nós.

Ventinho bom, mar tranquilo, dia lindo, velejada perfeita! Fomos aprendendo a nos localizar o tempo todo, a cada minuto o Roque nos chamava atenção para uma bóia, um ponto em terra, um barco que estava fazendo a mesma rota, uma ilhota, a illha do medo e sem perceber o tempo passar - principalmente Mariana que deu aquela dormidinha - chegamos em Salinas.

Esta é a única imagem que temos da viagem. Na correria, esqueci a máquina fotográfica. Em Salinas, encontrei um cartão postal.

Desembarcamos em Salinas e, mortos de fome, fomos comer. A cidadezinha tem uma "praça de alimentação" à beria mar, ou seja, as antigas barracas de praia foram para boxes numa pracinha com um  calçadão em frente. Comemos lambreta, ensopado de Aratu e Mamá um peixinho frito (com cabeça) que ela adora. Fizemos um tour por Salinas. Uma cidade super bonitinha que vive do mar. No fim da tarde, pegamos umas iscas e fomos para o barco. À noite ficamos batendo papo, tomando um vinho e pescando - 3 peixinhos, um siri e uma enguia que voltaram para o mar.

Decidimos que no dia seguinte partiríamos rumo à Mutá.

Salinas – Mutá

Carta na mão, rota traçada e lá vamos nós para Mutá. Um percurso mais longo pois voltaremos até Itaparica e de lá mais algumas horas até Mutá.

Mais uma velejadinha deliciosa com vento bom (de través) e mar tranqüilo. Mais aprendizado, mais cálculos na carta náutica...O Roque não deu folga, tínhamos que saber onde estávamos pois teríamos que passar por um canal estreito, raso nas laterais, um lugar que ele também não conhecia muito bem. Bom, como é gostoso ficar fazendo a rota, assumi essa função. Os meninos gostam mais do vento, Mamá, de dormir...

No finalzinho da tarde chegamos lá, desembarcamos. Os meninos foram procurar algum camarão ou peixe para o jantar. Eu e Mamá ficamos no mar, uma piscina – Mamá encontrou umas crianças e quis ficar por perto – fim de tarde lindo, lugar maravilhoso, um lindo arco-íris atrás do Memê – cadê a máquina? Não precisa. A cena vai ficar gravada para sempre na memória.

Quando voltaram, Bob e Roque disseram que não estávamos em Mutá e sim em Cações (erramos por uma praia) e não precisou muito para eles descobrirem que esse seria o motivo para me encher pelo resto da viagem. A navegadora errou o lugar, disse que iríamos para Mutá e fomos para Cações, quero meu dinheiro de volta, que navegadora é essa? Eles voltaram com essa notícia e com Lulas, hummm, eu a-d-o-r-o lula. O jartar? Espaguete ao molho de lulas e um vinhozinho bom pra arrematar.

Todos cansados, com sono. O mar ali é tão calmo que o barco nem se mexia. O soninho foi bom....

Mutá – Salvador

O dia não amanheceu tão lindo, deu para ver que a volta não seria das mais tranqüilas. E assim foi.

Saímos de Mutá no motor, não tinha vento algum, só nuvens no céu. Quando estávamos próximos à Itaparica o vento chegou, ainda um pouco fraco. Barulho estranho no motor, fumaça, Roque foi ver, o suporte do motor quebrou, vamos voltar na vela, estamos sem motor. Tudo bem, o vento estava firme e, depois de alguns minutos, disse a que veio. 

Ventaço (15 a 20 nós), mar agitado, barco chacoalhando. Excelente para velejadores, não tão bom para os tripulantes. Mamá ficou meio chateada, não gostou muito e estava sem sono para dormir. Fiquei na cabine de proa com ela, contando todas as estórias que eu sabia e as que eu nem sabia que sabia. Finalmente ela dormiu. Ainda bem porque a coisa ficou pior (ou melhor). O vento apertou, fui para o cockpit, lá é bem melhor. É gostoso, é emocionante. Roque estava vibrando. Bob também. Isso é que é velejar. Confesso que fiquei com um medinho, principalmente quando o barco adernou de verdade e eu achei que fosse virar. Depois me acostumei. Ainda estou me familiarizando nesse ambiente tão diferente que é o mar.

Como estávamos no contravento, fomos cambando. Parceia que tinha passado um furacão no barco, tudo o que não estava no seu devido lugar, foi pelos ares. O Roque me pedia para plotar nossa posição toda hora pois tinha que ver a rota e aproveitar bem o vento e eu entrava naquela cabine inclinada e fazia o possível pra não cair.

Colocamos travesseiros dos lados de Mamá e, como ela estava bem na pontinha da proa, ficou bem protegida das viradas que o barco dava a cada cambada.

Entramos no canal de aratu com chuva e vento fortíssimos. Mamá acordou, fiquei na cabine com ela. Bob e Roque estavam a mil, adorando. Bob acabado, mas aproveitando o aprendizado. O espírito regateiro baixou no Roque e ele queria apostar corrida até com a gaivota que passava J Para cruzar aquele canal, acho que eles cambaram, pelo menos, umas 15 vezes. O vento ajudou, chegamos até a nossa poita sem motor. Nem acreditamos, pois achamos que teríamos que pedir um reboque.Chegamos.

O vento foi amigo.

A aventura, inesquecível.  

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