MAIS REGATAS

Depois de mais um tempão sem noticias por absoluta falta de tempo aí vai o relato dos últimos meses.

 

Temos participado de muitas regatas. Bob no Memê e eu com as meninas.

 

Participar de regatas tem sido uma aventura incrível além de nos proporcionar muito aprendizado.  No final de junho fui para Brasília participar do Saias ao Vento. Um evento muito bacana e só para mulheres. Começamos a nos preparar para essa regata em maio e fui convidada para fazer proa no Malagueta, um Velamar 22 espertinho da única equipe feminina aqui da Bahia. Eu já tinha feito a proa em duas regatas com uma tripulação feminina que formamos aqui no ano passado mas as condições agora seriam muito diferentes. Primeiro por ser um barco menor onde eu faria a proa sozinha e segundo porque as regatas em Brasília são barla-sota (ir para a bóia no contra vento e voltar com vento de popa) – isso significa subir e descer o balão várias vezes.

 

Confesso que os primeiros treinos foram desastrosos :) Eu ficava super confusa com tantos cabos e o balão sempre se enroscava em algum lugar na hora de subir...era frustrante... Depois de muitos treinos as idéias e os cabos foram desembaralhando e agora posso dizer que sou uma proeira razoável (ainda falta muita coisa prá aprender, como por exemplo poder antecipar as manobras e entender as táticas durante a regata, mas essa será uma nova fase) . Além da experiência e do aprendizado, o programa foi ótimo. Fomos para Brasília numa quinta-feira e treinamos, treinamos, treinamos – dei muitas risadas também, fiz novas amizades e conheci a terra do mensalão, mas vamos falar de coisas boas... Na regata aconteceu de tudo e nós perdemos feio pois toda a nossa equipe era composta por principiantes - cada uma em sua função - além do fato de estarmos acostumadas aqui com outro tipo de clima e  regata e a mulherada lá ser fera mesmo.

 

Voltando de Brasília não tive muito tempo pra velejar...muito trabalho, tempo ruim...enfim. O Bob participou da Regata de Dupals no Memê com um amigo (vice campeões !) e na semana passada fui mais uma vez com as meninas no Malagueta. Dessa vez eu fiz o piano, uma espécie de faz tudo cuja principal função é cuidar dos cabos do amantilho e burro do pau (ou contra-amantilho) – bem mais tranqüilo do que fazer a proa que é ralação pura.

 

Por falar em amantilho e burro do pau, estou aprendendo todos esse palavrões que a gente precisa aprender pra velejar: genoa, valuma, gaiúta, catraca, garruncho, estai, buja, manilha, escota, olhal, lais de guia, ufa! E isso é só o começo...he, he, he...Em Brasília demos muita risada com essa história do pau de Spinaker que chamamos simplesmente de pau. É pau pra cá, pau pra lá, levanta o pau, cuidado com o pau, o pau vai cair, me dá o pau...não dá pra não brincar...o melhor foi a gente no táxi que nos levou do aeroporto para o clube imaginando como seria o pau de Spi do nosso barco (que seria gentilmente cedido por um velejador candango) e nos perguntando sobre o saco do balão. O motista do táxi deve ter achado que éramos umas depravadas dispostas a abalar Brasília (mais do que já está...mas vamos falar de coisas boas...) .

Nossos diálogo sobre pau (de Spi) era mais ou menos assim:

 

Eu – Será que o pau está bom? Devíamos ter trazido o nosso por precaução.

Gilka – É mesmo, ainda bem que eu trouxe o nosso saco, vai saber como é o saco do cara.

Táta –É. Quando o pau está ruim é fogo. O do Malagueta estava horrivel, ainda bem que o Bob deu o pau dele prá gente.

 

Dá para imaginar o que o motorista pensou de nós né?

 

Bom, prá concluir: Estamos MORRENDO de vontade de fazer um cruzeirinho mas São Pedro não está ajudando. Temos feito algumas reforminhas no Memê e ele está mais lindinho a cada dia. Até a próxima...

 

 

 Chegando do treino em Brasília, num incrível por do sol

Primeira Regata

  

Participamos da nossa primeira regata no Memê. Eu e Bob, sozinhos. Foi a Regata de Casais organizada pelo Aratu Iate Clube. O percurso vai do canal de Aratu até Itaparica.

Sempre ouvíamos todo mundo falar dessa regata, que é super animada, uma festa super gostosa e um bom motivo para os casais irem sozinhos e confraternizarem. Então, lá fomos nóis. O Bob todo feliz com a primeira regata do Memê e eu animada também pois adorei participar de todas as regatas que fui. A gente não fazia questão de ganhar, mas também não queria fazer feio. O Bob deu a maior geral no Memê, tirou peso da proa e do barco em geral e até o bimini foi para a cabine...tudo direitinho. Estudamos um pouco as regras de regata e o resto era ver como ia ser. Estávamos super ansiosos.

 

Bom, no começo da regata nos demos super bem. Largamos direitinho, no contravento. Fomos cambando e alcançando os que estavam à nossa frente. Eu fui no leme e o Bob fez a tática e as cambadas (tem mais braço do q eu e estávamos com a genôa 1). Em pouco tempo só tínhamos um barco na nossa frente e fomos na cola dele. Durante o percurso, já próximos a Itaparica, os barcos grandes nos alcaçaram pois estavam com balão (e a gente sem). Mas mesmo assim chegamos bem e estávamos super felizes de ter participado e conseguido chegar bem na nossa primeira regata.

 

Chegando no pier encontramos a galera toda. Foi ótimo, uma farra. Todos brincando, contando as aventuras da regata e a gente lá, super feliz até que descobriu que... “comemos” uma bóia ? Não! Não é possível !  Para quem não é da área, "comer bóia" significa, nesse caso, que fizemos o percurso errado, mais curto.

 

Pois é, na fome de ir atrás do barco que estava na nossa frente, ele errou e nós, preocupados com ele, erramos também. Que merda! Não acreditamos !!!  O pior foi ouvir o povo dizendo que a gente devia estar com fome e todas as outras piadas que os velejadores adoram fazer com quem fez  besteira.

 

É claro que não ficamos putos de verdade. Só deu uma raivinha, mas passa logo e o clima dessa regata é tão bom que o que conta mesmo é a festa, que foi ótima. Depois de chegar e tomar um banho, vamos todos para o restaurante, enchemos a cara e nos divertimos muito. Tem até noitada em um dos veleiros, o Le Par Un,  que vira a boate pois tem som, DVD e ar condicionado.

 

Na festa teve sorteio de brindes, a gente ganhou vários.

 

Saldo da regata: 1 balde, 1 garrafa de champagne, 1 camiseta, 1 pente, 1 chaveiro e...  

1 bóia. Atravessada na garganta. 

 

 

 

Memês. Os comedores de bóia.

Catu, Itororó, Mutá, Ilha do Cal e Temporal no Carnaval

 

É bastante título, mas não tenho muito a dizer. Só que esses lugares são lindos, é uma delícia velejar por lá, adorei cruzar a ponte do funil (parece que o mastro vai bater mas não bate)... passamos dias deliciosos porém achamos o Memê um pouco pequeno para tantos dias de cruzeiro. Afinal de contas já não temos mais 20 anos...he, he...estamos ficando véios e agora quase corcundas de tanto ficarmos nos abaixando para pegar as coisas :)

 

 

 

Chegando na Ponte do Funil

 

Esse temporal do Carnaval vale uma nota. Estávamos em Itaparica com dias lindos mas na segunda de manhã tínhamos que voltar. Armou um temporal  e ficamos apreensivos pois nosso motor estava meio esquisito. Como não tinha jeito, resolvemos encarar.  O tempo estava bem feio, vento sul e  mar bem alto, mas tudo a favor.  O motor terminou de pifar logo na saída do fundeio, então era ir na vela mesmo. No problem. Tinha vento de sobra.

Já estou dando minha timoneadas, perdi aquele medão. Na verdade, adorei pegar o vento forte com o mar agitado, já estou  “si sentindo” .  Foi a nossa volta mais rápida de Itaparica e uma das mais emocionantes também.  É bom sentir segurança depois de tanto esforço no aprendizado. Segurança principalmente no Bob porque eu não encaro essa velejada como comandante, ainda sou arrais :)

 

O strees que rolou lá em Itaparica a gente não pegou mas foi o seguinte: na madrugada de segunda para terça entrou um ventão sul , +de30 nós e ondas altas - o fundeio em Itaparica é desabrigado para esse vento. Muitos barcos desgarraram, um foi parar na praia, outro perdeu o mastro embaixo do píer, duas lanchas afundaram, enfim , uma noite de terror para quem não está acostumado com isso. Foi mal. Quem estava lá não gostou do que viu. Ainda bem que eu já estava aqui, na minha caminha quentinha....

 

Depois disso começou uma discussão entre os velejadores sobre um item muito importante: SEGURANÇA. A conclusão que eu tirei é que temos que estar mais ligados porque um dia o bicho pega...e nosso dia vai chegar ! Vamos esperá-lo com nosso barquinho bem equipado, tudo certinho,  muita corrente, muita ancora, muita informação, todos os equipamentos certos, funcionando e, principalmente, muita tranqüilidade.

 

 

 

Arco-íris lindo e o temporal chegando...

 

Voltei

Desculpem queridos leitores desse blog (se é que vocês existem) por estar tão ausente...As coisas tem acontecido numa rapidez maior do que meu tempo para escrever permite, sendo assim, estou atrasadésima com as novidades.

 

A primeira delas é que agora faço parte de um grupo de velejadoras (só mulheres, yes!) que se chama Rosas dos Ventos.  Tudo começou quando mudou-se para Salvador uma velejadora de Brasília (Christina Frediani) que resolveu agitar o lado da vela feminina por aqui. O terreno estava fértil e em pouco tempo já formamos uma equipe, corremos (e ganhamos!*) duas regatas, nos reunimos semanalmente, já trocamos muitas experiências , informações e eu já aprendi muita coisa, inclusive a gostar mais ainda de velejar. Já sou Arrais e em seguida começamos um curso para Mestre Amador. * no corrigido ficamos em segundo e terceiro, mas o gostinho foi de vitória !

 

Nós, do Memê, temos velejado bastante também. Tivemos 15 dias de férias e cruzeiramos bastante pela Baía de Todos os Santos.

 

A cada dia e a cada velejada temos nos sentido mais seguros (ainda sem sair da Baía) mas achamos que esse “estágio” está sendo importante para os próximos desafios – o prirmeiro será ir até Morro do São Paulo.  Falando em sair da Baía, outro dia fomos fazer essa aventura, a Mariana e um amigo estavam com a gente. A idéia era pegar um pouco de mar aberto então rumamos em direção ao Farol da Barra com a intenção de irmos até Itapoan. O problema é que justo nesse dia, o vento não estava pra peixinhos e enquanto estávamos em águas abrigadas o vento chegava a uns 20 nós com rajadas de 25.  Quando chegamos ao Farol da Barra o bicho pegou e o mar ficou totalmente confuso, nós começamos a pular que nem pipoca, o Michel (nosso amigo) que estava na proa quase foi parar no mar e a Mamá  nessas alturas já estava protestando. Meia volta....mar tranqüilo, ficou pra próxima.

 

Férias

 

Durante nossas férias ficamos bastante em  Itaparica e também fomos para Ilha do Cal, Mutá, Tororó, Catu e Maragogipe. Conhecemos muitos velejadores de fora em Itaparica já que lá é um belo point para os cruzeiristas internacionais e os daqui que estão de passagem...um monte de gente interessante. Conhecemos Lars e Brigitt, um casal de Suecos ultra simpáticos que se aposentaram e agora velejam pelo mundo, os dois quase velinhos já, imagina, estão aí, jogando duro na vela. Vieram da Suécia para cá passando por Portugal, Cabo Verde, Recife e agora estão por aqui...amando o Brasil.  Conhecemos também a galera do Vagabundo, o veleiro que era do Helio Setti (um velejador que deu a volta ao mundo e escreveu um livro super gostoso sobre suas aventuras – depois de um tempo que voltou, ele morreu super jovem e deixou esse livro que é um relato de um apaixonado pela vida e pela vela) .

 

 

Os Vagabundos no Paraguassú 

Mias uma vez em Maragogipe

  

Quando conhecemos  os “Vagabundos”– Fábio, Rose, Márcia, Roberto e Amália  – eles estavam de bobeira, pensando em fazer algum cruzeiro rápido pois teriam que voltar para São Paulo. Depois de algum tempo de bate papo sobre os locais bons de se cruzeirar, sugerimos o Paraguassú. Eles se empolgaram na hora  e como nós também estávamos livres para qualquer coisa resolvemos ir juntos e partir em algumas horas.  A viagem foi deliciosa e começou com uma velejada super agradável chegando em Maragogipe com um lindo por de sol. À noite combinamos um jantarzinho juntos no Memê, eles trouxeram a massa,  e nós entramos com o fogão e o vinho. Uma noite muito agradável, conhecendo outras vidas, outras histórias, eu adoro. No dia seguinte fomos velejar pelo rio e procurar uma cachoeira que disseram pra gente que tinha por ali...velejamos o dia inteiro e não encontramos cachoeira nenhuma, mas a velejada foi ótima e a companhia também. Chegamos em Maragogipe e desembaacamos para matar a fome.

Foi super engraçado porque a cidade fica no alto e a gente desembarca num píer super comprido, chega num lugar meio esquisitinho. Todo mundo estava azul de fome e não estávamos muito a fim de ficar carregando a Mariana (que já estava cansadinha) no ombro. Então a idéia foi pegar um transporte para subir até a cidade e encontrar um restaurante o mais rápido possível. Quando falamos de restaurante o motorista da van nos disse que o único que tinha “marisco” – n.t.:frutos do mar para quem não fala baianês - era um que estava na nossa frente, um lugar feio e escuro que mais parecia uma garagem do que um restaurante. Nós ainda insistimos, perguntando se lá na cidade não tinha opção mas ele foi categórico e então resolvemos ver de perto.

Chegando lá encontramos com uma daquelas negonas baianas de cara boa sentada em uma das mesas e meio ressabiados perguntamos se tinha comida, ela disse sim, se tinha frutos do mar, ela disse sim, se a comida era boa, ela disse eu ponho na mesa e vocês me dizem. Sentimos firmeza, o lugar já não nos pareceu tão assustador assim e acabamos sentando e pedindo um monte de comida: camarão frito, carne de sol, peixe frito, moqueca de camarão....e algumas caipirinahs e cervejinhas. A fome era muita mas a comida...hummmm....maravilhosa. O mais engraçado depois de estarmos ultra satisfeitos foi descobrir que o motorista da Van era o maridão da cozinheira que era também a dona do restaurante, he, he, pelo menos a indicação foi boa e quando subimos para a cidade descobrimos que realmente não tinha outro que servisse frutos do mar.

 

A cidade de Maragogipe me pareceu um pouco surreal...não sei se por sua geografia, se por estar um pouco abandonada, se por ter uma arquitetura que mistura os mais diversos estilos imagináveis ou se foi pelos presépios que encontramos montados nas casas....isso sim...foi surreal...Até agora me arrependo por não ter desembarcado com uma máquina fotográfica.  Vou tentar dar uma idéia do que são esses presépios já que não tenho fotos para ilustrar: pelo que deu pra entender deve ser uma competição das carolas da cidade para ver quem tem um presépio mais bonito, mas quando imaginar um presépio, não imagine um cantinho pequeno com umas estatuetazinhas de reis magos e um neném minúsculo em uma mangedoura. Imagine que as pessoas tiram TODOS os móveis da sala de estar  -que geralmente dão para a rua, pois a maioria das famílias moram em casarões antigos – e montam um instalação que é  um presépio com muitos animais, estatuetas grandes, flores artificiais, uma mangedoura de tamanho quase real, luzes piscando, som de fundo...inimaginável, acho que será difícil descrever. Conforme fomos descendo para ir embora fomos passando pelas casas e vimos os mais diversos tipos e modelos de presépios e suas donas muito orgulhosas nas portas das casas. Muito legal.

 

Para fechar o dia com chave de ouro, quando pegamos nossos botinhos para remar até o barco vimos que a água ficava iluminada conforme o remo corria. Já tínhamos visto planctons em outro lugares, mas acho que lá, por ser tão escuro, eles pareciam ser mais brilhantes. Acabei o dia, ou melhor, a noite, dando um mergulho iluminado nas águas do Rio Paraguassu...

 

 

Chegando em Maragogipe

Depois de um tempo

Iiiiiiiii, faz tanto tempo que eu não escrevo que nem sei o que dizer.

 

Também achei que ia ficar meio chato ficar falando sempre as mesmas coisas: a velejada foi assim, o mar estava assado, o passeio foi lindo, velejar é ótimo, às vezes nem tanto....;)

 

Bom, como um dos objetivos desse blog é compartilhar nossas experiências de novos velejadores então acho que é isso que eu tenho que falar - pelo menos tentar.

 

Temos dado velejadas ótimas. Pra falar a verdade, eu “mesma” estou meio devagar...Fiquei com um medinho do leme que estou perdendo, aos poucos. Não pensem que estou apavorada, nem que eu não gosto...mas tenho meu ritmo de canceriana...vou me adaptando, vou devagar, absorvendo, experimentando, observando ...

 

No fim de semana passado fomos para Itaparica. Sexta de tarde, malas prontas – minha bagagem está ficando cada vez mais racional  . Fomos correndo para o clube, não pode sair tarde para não chegar em Itaparica à noite. Motoramos até a bóia 4 para velejar sem stress e, sem brincadeira, já está ficando até chato escrever isso toda hora, mas foi a melhor velejada que já demos no Memê. Se todas as velejadas fossem assim eu já tinha jogado tudo pro ar e estaria dando a volta ao mundo! 

 

Tenho lido muitas histórias de velejadores que se aventuram pelo mundo e percebi nesses relatos como eles se referem ao mar e ao vento como se fossem entidades e não fenômenos da natureza e ao veleiro como se fosse um ser vivo e não um simples objeto feito para boiar e andar quando o vento sopra. Me lembro de achar que, por ingenuidade, as civilizações antigas tratavam a natureza com reverência: O Deus Sol, o Deus Vento, Deus chuva, Deus trovão, Deus raio...  Porém agora, que estou apenas no começo dessa experiência que é lidar de fato com os fenômenos da natureza, começo a me questionar se Mar e Vento não são realmente Deuses que nos chamam, nos guiam, nos dão broncas, nos lançam desafios e nos recompensam quando acham que merecemos e que nosso barco é o elo entre nós, seres humanos, mortais, pequenos seres conscientes e o universo, o todo, a natureza, o infinito. Quem já leu Sidarta lembra que o balseiro conversava com o Rio. Pois acho que é assim. A natureza nos ensina - se estamos atentos para absorver sua sabedoria. Velejar é aprender a lidar com esses fenômenos, mas será uma velejador de verdade quem souber decifrar o que a natureza tem a nos dizer. É quase como meditar, é entrar em comunhão com o universo.

 

Estou dizendo tudo isso porque tenho tido sensações novas, diferentes, fortes. Durante o caminho para Itaparica senti o vento e o mar nos empurrando, com delicadeza, com doçura, com carinho. O vento soprava forte num través folgado, o Memê nunca ficou tão feliz (sim, agora o Memê tem alma! ) pois o Mar também estava nos conduzindo como se fosse uma mão carinhosa nos embalando. Itaparica nos recebeu com um pôr do sol incrível.

Bom, daí eu acordei. Bricadeira, quem acordou foi Mamá que veio embalada no sono e com certeza teve sonhos maravilhosos.

 

Em Itaparica nos divertimos muito. Foi aniversário do Zé e comemoramos o fim de semana inteiro. Sexta à noite comidinhas e vinho no Memê . Sábado de manhã, a praia de Itaparica - um banco de areia que se forma na maré baixa e me fez acreditar que eu estava na Polinésia – depois, almoço no Táta : lambretas grelhadas com Champagne e muitas comidinhas boas. Muito papo, boas risadas,  um descanso, por do sol...e Jantar pra comemorar o aniversário do Zé. Na volta ao Memê, mais uma vez, me sinto próxima a natureza como nunca estive.

 

Deitamos no cockpit e ficamos batendo papo, olhado o céu...silêncio. Fui para outra dimensão – não é só o fato de estar na natureza...eu sempre gostei, gosto de viajar, gosto de mato, gosto de mar...mas estar ali, naquela situação, num barco...é muito diferente...é estar envolvido por completo...imagino como deve ser uma longa travessia...só o céu,o mar, o vento, seu barquinho bem pequenininho (por maior que ele seja) naquela imensidão...admiro muito quem faz isso. Não sei se um dia terei coragem. 

A chegada em Itaparica

Domingo.

 

Porque Domingo é sempre Domingo onde quer que você esteja? Parece que nos Domingos o clima muda – e nesse dia mudou de fato. Mas não é só o clima tempo, é o nosso clima, dia de ir embora, véspera de segunda,acabou a farra...sei lá, nunca gostei de Domingo. Valeu a experiência gastronômica: comemos Mocotó no mercado de Itaparica. É um hábito local comer mocotó de manhã. Imaginem os pescadores que acordaram as 4, foram pescar, já fizeram seu trabalho e chegam com fome, o que eles querem? Comida. Feijão, Mocotó, Rabada, essas coisas que nos dão “sustança”. Imaginem também quem vem da farra? Passou a noite em claro, tomou todas e está doido pra dormir mas está com fome e com um início de ressaca...Mocotó deve curar até pensamento. Pois é, eu já estava curiosa pra experimentar esse tal de Mocotó – aqui em Salvador tem um mercado de comida no Rio Vermelho que é o point da madrugada, saiu da gandaia e caiu no mocotó. Como nós não somos da farra nunca havia experimentado essa iguaria. Mas, voltando ao assunto, acordamos e ficamos esperando o Zé nos resgatar (eta falta que faz esse botinho!) – tudo bem, podíamos ter ido com o Memê até o Píer mas também não tínhamos muita disposição pra isso. Enfim, lá pelas 11 desembarcamos na cidade e Zé foi comer seu café da manhã: rabada com feijão. E eu que estava naquela curiosidade pois no dia anterior  havia sentido o cheirinho do Mocotó entrar pela veia,  resolvi experimentar. Confesso que só agora, depois de quase 40 anos de existência, estou aberta a experiências gastronômicas como essa. Encarar aquela tigelinha, com um monte de víceras – surpresa! não é só mocotó que vem quando a gente pede um mocotó – não é para qualquer um. Tem que ser iniciado na arte de provar coisas novas. E o pior é que, posso falar? ADOREI. Bom, na verdade só comi o mocotó. Não deu para encarar bucho, rins, intestino, pulmão, etc...experimentei tudo, mas para comer mesmo, só encarei o tal do mocotó que é muuito, muito bom acompanhado de um pirão que é feito com o caldo dessas carnes.

 

Ai, ai...estou escrevendo muito...saindo do assunto....mas, só para finalizar: a volta foi horrível! O tempo virou, o vento estava forte e a maré contra. Logo na saída quebrou uma peça da retranca. Íamos velejar só com a Genoa. Fizemos umas trapalhadas  e eu fiquei insegura, com medo. Se aquela peça quebrou assim tão fácil, quer dizer que o mastro daqui a pouco pode cair na minha cabeça  – incrível como podemos ser pessimistas quando não está tudo bem.  Mas, vamos lá, somos velejadores, não vou ficar com medo. O Bob também está estranho...o barco chacoalha, a Mariana já dormiu e eu quero ficar perto, proteger. Lembra aquela história do vento e do mar bonzinhos? Pois é, eles não estavam muito legais...ou estavam? Temos que aprender né? Se eles estivessem sempre bonzinhos, como íamos nos virar na adversidade? Os mestres também tem que ser duros, eu não faço isso todo dia com a Mariana? Dou umas duras pra ela aprender a ser safa na vida ?  OK. Fizemos tudo errado e, pior, desistimos (o Zé deu um monte de bronca  no Bob essa semana, he, he, ainda bem que eu não estava senão ia sobrar pra mim também...). Depois de algum tempo, algumas discussões entre eu e Bob com relação a rota, o vento apertou, começou a chover... o capitão decidiu motorar. Não fui eu não viu? Tudo bem, eu até que gostei. Fui dormir com Mamá na cabine, com o barco chacoalhando, aquele motor barulhento e o Bob foi de piloto de Popó...para ele foi bem chato...eu não posso dizer o mesmo...só acordei quando chegamos em Aratu...Não é que o mocotó deu um soninho bom?

 

 

 

 

 

Ancorando em Itaparica

Regata Aratu Maragogipe

Chegamos de mais uma tão esperada aventura. Participar da Regata Aratu Maragogipe.

 

Quem disse que o melhor da festa é esperar por ela, tem razão. Apesar dessa festa ter sido tão boa quanto a espera.

 

Passamos a semana toda nos preparando: estudamos a rota, colocamos os waypoints no GPS, nos reunimos com os mestres para pegar as dicas, o Bob tirou o Arrais, enfim, na sexta-feira já não conseguíamos nos agüentar de tanta ansiedade. Mamá não foi dessa vez, como não sabíamos o que viria pela frente preferimos deixá-la com a vovó.

 

Na sexta de tarde fomos para o clube preparar o Memê. Tínhamos uma lista cheia de coisinhas pra fazer e foi super bom ficar lá, ajeitando tudo, limpando, organizando, vendo todos os velejadores chegando, entrando no clima da regata...é muito legal ver como todos curtem e se preparam para essa grande festa. A Regata Aratu Maragogipe é uma das maiores do Brasil e esse ano ainda teve a participação dos barcos do Cruzeiro Costa Leste com sua flotilha que veio do Rio de Janeiro. A rota também é especial pois a regata sai do mar e entra pelo Rio Paraguaçu até chegar na cidade de Maragogipe. Desde que começamos a velejar, todos nos falam sobre essa regata...para nós foi como um batismo na vela.

 

A festa começa na sexta-feira. O Aratu Iate Clube todo enfeitadinho para receber os participantes da Regata, muita gente. Nós ficamos lá, vendo tudo acontecer e dormimos no Memê. Só não deu para dormir direito porque o som era alto e a festa estava animada.

 

Tínhamos combinado com Neto de sair um pouco mais cedo, pois só íamos acompanhar a regata e não precisávamos seguir os horários oficiais da competição. 6 horas da manhã  já estávamos em pé, últimos preparativos, gelo, água, nossos hóspedes (Alex e Andréa) chegaram e lá fomos nós. O tempo fechado, ameaçando chover. O mar tranqüilo.

 

A travessia foi ótima. Depois de poucos minutos de velejada o Drakon já sumiu de vista e nós fomos fazendo tranqüilamente o nosso percurso, dando umas plotadinhas na carta para checar nossa posição. Eu marquei um waypoint errado no GPS que depois de um tempo marcava a rota inversa a que queríamos! Ainda bem que tudo estava tranqüilo e tínhamos assistentes para ajudar no trampo – tínhamos também diversos barcos como guia – era só olhar pra frente e para trás e ver um monte de veleiros de todos os tipos e tamanhos indo na mesma direção. Lá perto da entrada do Rio rolou um ventinho mais forte, bem na hora que o Bob me deu o leme para fazer xixi :)  Quando o vento está forte, o leme responde rápido, com as ondas o barco sobe, vira, e “perde” um pouco o vento, timonear nessas condições é difícil e eu ainda estou insegura, tudo bem, dei uns gritos e o Bob voltou logo. Essas sensações me lembram quando aprendi a dirigir carro, aquele medo que dá quando a gente para na ladeira sabe? Depois passa e vira brinquedo de criança e é assim que eu estou encarando a minha experiência no mar. Tem horas que fico com medo, mais eu sei que vai passar.

 

 

 

Maragogipe

Entrar no Rio Paraguaçu é emocionate.  Além de ser muito bonito, as condições mudam, não tem mais onda, o vento não é tão forte. Os barcos se juntaram e a Regata nos alcançou. A maioria do percurso é  feito com balão (aquelas velas grandes e coloridas) pois o vento é de popa. Parece um sonho estar naquele silêncio, no meio de tantos barcos, entrando naquele Rio com montanhas baixas na margem, vegetação exuberante, mata atlântica ...o tempo estava fechado, nuvens cinza, uma luz especial, diferente, mágica...eu me lembrei das Brumas de Avalon, viajei...

Bom, essas sensação era minha porque na Regata o “pau comia” . Era grito pra lá, palavrão pra cá, balão rasgando, um barco de pescadores fazendo batucada no meio, a gente encontrando amigos, conversando, conhecendo os barcos vizinhos, todo mundo brinca, se fala, o clima é ótimo, não tem stress, principalmente para quem não está preocupado em competir.

 

Nunca vi 8 horas passarem tão rápido! Em pouco tempo já avistamos Maragogipe. Como fomos devagar,  a maioria dos barcos já estava ancorado...procuramos nossos amigos no meio dos barcos, passamos pelo Drakon e fomos parabenizar Zé e Táta que, só pra variar, ganharam na categoria deles (fita azul, moral total).  Pulamos para o Táta, brindamos com a Champagne que eles ganharam e nos preparamos para a festa.

 

A premiação é na cidade com um churrasco e um palco armado para a entrega dos troféus. Lá vamos nós. Nem deu muito para conhecer o lugar. Ficamos mais na função da festa mesmo, queríamos estar com nossos amigos e sei que vamos voltar em outras ocasiões mais “turísticas”.  A premiação foi divertida, um monte de gente ganhou um troféu balde pra vomitar (palhaçadas da galera que organiza), encontrei a Renata (amiga virtual)  que fazia parte da  tripulação feminina que veio de Brasília correr no VMax - única tripulação feminina da regata – vimos nossos amigos receber o prêmio deles, todo mundo bebe, se diverte, e tenta achar os barcos na volta. Na verdade acho que essa é a grande aventura dessa regata. Você deixa seu barquinho lá ancorado, pega uma canoa daquelas “piscou, virou” – a gente descolou uma com motor – e vai para a festa. Chega lá, come, bebe e na volta...quem disse que é fácil encontrar seu barco? É muito escuro, tem um monte de barcos iguais ao seu...bem que o Alex disse pra gente levar o GPS quando saímos...na volta conseguimos um barco com motor daqueles que não tem ré nem direção, parece que vai bater em tudo e quando finalmente achamos nossos barcos o Memê quase foi abalroado por aquela coisa com motor. A gente gritava Pára, pára ! O piloto do treco falava Não dá, não tem ré, é a correnteza! E o barco indo de frente e rápido na direção do Memê – Quer me matar do coração? Deu uma batidinha e quem estava na proa segurou. No final nada aconteceu, mas a gente quase morreu só de pensar no nosso Memezinho com um rombo no casco.

 

Todos cansados, exaustos, ainda naquela onda, bater mais um papinho, um charuto pra comemorar...e cama.

 

É lindo amanhecer em Maragogipe , mais uma vez a paisagem era de sonho...

 

Depois do café da manhã é hora de voltar pois temos que ir na maré vazante. Vai todo mundo no motor, não tem vento...Saímos do Rio, o vento apareceu,  Zé deu a dica para motorarmos até um ponto que nos possibilitou levantar os panos e ir num bordo só até a entrada de Aratu. Na baía, golfinhos se despedem do Memê. O tempo abriu, o mar estava liso, o vento de través e eu matei a inveja que sentia da Mamá: dei aquela dormidinha no cockpit...tudo de bom!

 

 

 

 

Se quiser ver mais, clique em Fotos do Memê

 

 

 

Álbum de Fotos

O Memê velejou sexta e sábado. Na sexta o Bob foi sozinho, saiu para o mar (para quem conhece, até a bóia 4) e pegou um mar bem viradinho. Ele está treinando fazer tudo sozinho para eu poder ficar com a Mariana quando for preciso.

No sábado, Surak foi nosso hóspede. Ele está começando o curso de vela e é legal ter gente interessada no assundo a bordo. Ele se tornou um amigo super querido quando, há 10 anos atrás, começou a cuidar do meu computador que, como todos os computadores, sempre dá um pauzinho. Ele tem o maior jeito prá vela e o espírito aventureiro. Parece que o virus vai pegar nele, e esse não tem Norton Antivirus que dê jeito! Hê, hê, hê....

Tentamos sair um pouco da baía de Aratu mas o vento e o mar não estavam para peixe e assim que pegamos ondas maiores a Mariana começou a chiar, entro na cabine com ela e daí fica chato pra mim, pois a cabine chacoalha prá caramba...decidimos que a velejada ia ser só na Baía de Aratu, bendita baía, eu te amo! Como é bom poder velejar ali quando o Mar está nervoso lá fora...estava tão lindo! Depois de muitos dias de chuva, uma tarde super agradável um por do sol lindo, valeu.

É claro que eu e o Bob ficamos com vontade de ficar naquele marzão, um pouco de emoção e adrenalina é bom, estamos doidos para ter mais experiência em mar aberto. Só que temos que pensar na Mariana. Com ela a bordo temos que pegar leve; para ela esse não é um programa legal. Decidimos que queremos estar bem seguros (principalmente eu) para aventuras maiores com Mamá a bordo. Temos que ter paciência...

Mesmo assim, a velejada foi 10. Fiz um álbum de fotos para não deixar esta página muito pesada com imagens : sapolnik.fotoblog.uol.com.br o link está lá no cantinho do blog.

Tchus! Segundão, semana cheia pela frente...não vejo a hora de chegar a próxima velejada...

 

 

Semana passada fomos a uma palestra da Família Schurmann. Uma história linda que faz babar quem é velejador e quem não é também. Eles são super simpáticos. Aquela gente que você quer ficar o tempo todo perto, ouvindo as histórias e aprendendo com tantas experiências (de vela e de vida). O Vilfredo nos convidou para conhecer o Aysso que está aqui em Salvador por alguns dias. Aí está o registro. Mamá adorou a roda de leme. Não preciso nem dizer que nós adoramos o barco... entrar lá é realmente ter a sensação que você está conhecendo a casa deles. Lindo!

Foi assim que começou

 

 A velejada de hoje foi especial. Em vários sentidos.

 

O tempo não estava lá essas coisas, mas o melhor programa para um domingão, mesmo chuvoso, é velejar.

 

Um acidente na semana passada com a genoa - que enganchou na cruzeta e rasgou  - nos fez trocar essa vela por uma outra menor, que veio com o barco. Ontem o Bob já tinha ido velejar sozinho(viciado) e me dito que a cambada estava bem mais fácil com a vela menor e hoje pudemos sentir a diferença. Para mim foi muuuiiittoooo mais fácil “pilotar” os cabos. O barco adernou menos e continuou andando direitinho. A cambada foi mais rápida, caçar a vela depois, também. Ótimo. Importante para nosso conforto e segurança. O Bob já está treinando, e conseguindo, fazer tudo sozinho. 

 

Bom, fomos lá. Hoje só Bob, Mamá e eu. Sem os barcos ou os amigos por perto. Resolvemos ir um pouco mais longe, dar uma voltinha fora da baía de Aratu. Que tal ilha de Maré? Boa idéia.

 

A ilha de Maré é um lugar especial para nós. Eu ainda não escrevi isso aqui, mas foi lá que começou a nossa vontade de velejar.

 

O oratório de Maré é um restaurante na Ilha de Maré, tipo um clube. No passado era um destino de muitos velejadores, lugar agradável, piscina natural, boa cozinha regional, perto dos clubes de vela, etc. Um dia fui contratada para fazer um trabalho para esse cliente, a idéia era revitalizar o lugar. Ok. Fui lá conhecer o lugar, fiz o trabalho, tudo ótimo. Gostei muito de lá, mas só chega quem vai de barco.

Num belo fim de semana, Bob e eu estávamos de bobeira em casa e resolvemos ir para lá, mesmo sem barco. Fomos para a Marina de Aratu e ficamos por lá, íamos perguntar se havia algum transporte para a ilha mas não deu nem tempo.Chegamos na Marina e fomos andar no píer para ver os barcos, resolvemos perguntar, só por curiosidade, para uma família que estava se preparando para sair, se havia algum veleiro à venda e eles disseram que estavam vendendo o deles, acho que era um Brasília 23, o nome era Santo. Acabaram nos convidando para dar uma voltinha e essa voltinha durou o dia inteiro. Era uma família super especial, um casal e três filhos adolescentes, muito simpáticos. Passamos um dia delicioso velejando. Saímos de lá com um desejo: comprar um veleiro. Isso foi há, mais ou menos, 5 anos atrás.

 

Todo esse tempo passou rápido. A gente nem percebe. Muito trabalho, o nascimento da Mamá, compramos um ap, enfim, a vida tomou outro rumo mas o desejo ficou lá.

 

Hoje o dia foi especial pois chegar naquele lugar, com o nosso veleiro, com a nossa filinha... foi uma vitória. Foi a sensação de que não abandonamos os bons sonhos que temos e que vale a pena batalhar para conquistá-los.

 

Tudo de bom. O vento, o mar, o lugar, a família, a vida...e a chegada na poita, só na vela :)

 

 

 

 

 

 

 

PS. Para não falar só de vela,  preciso registrar outra paixão. Tenho paixão pela culinária, por pratos diferentes, por sabores, por temperos, por qualquer tipo de comida que seja feita com a alma, como diz meu irmão. Ontem o Zé nos convidou para almoçar e fez um prato baiano que eu nunca havia provado: Moqueca de Ovo. Zé, aquilo foi dos Deuses! Muuuuito bom, especial, feito com a alma. Obrigada.

 

A primeira velejada a gente nunca esquece....

 

Pois é. Vou considerar que demos nossa primeira velejada de verdade, pois desta vez saímos sem nenhum mestre com a gente.

Estávamos querendo fazer o cruzeiro de batismo do Memê nesse final de semana, que também foi meu aniversário, mas Zé e Táta não podiam e não sabíamos se Neto ia poder também. Já estávamos preparados para ir, no máximo, até a ilha de Maré.

Sábado de manhã Neto nos ligou e propôs irmos para Loreto – outro destino muito visitado pelos velejadores nos finais de semana.

Loreto é um pouco mais próximo do que Itaparica, e fica situado entre as Ilhas de Bom Jesus e dos Frades. Fica também em frente ao canal de Madre Deus, e ao porto da Petrobrás - o que, diga-se de passagem, prejudica bastante o visual maravilhoso de lá.

Quando Neto ligou, nem pestanejamos. Malas prontas em 2 minutos (mentira, sempre leva umas 2 horas) e lá vamos nós.

Até chegar no clube, preparar as coisas, o barco, etc...acabamos saindo de Aratu lá pelo meio dia.  Combinamos com Neto de ir seguindo o Drakon. Ainda não estamos seguros para aventuras solitárias, um barco experiente por perto faz toda a diferença.

A velejada até Loreto foi deliciosa. Não preciso nem dizer que Mamá, nem bem saiu do canal de Aratú já engatou no sono. O mar estava tranqüilo, o ventinho de alheta e o céu com nuvens mas sem chuva . Durante o percurso fomos prestando atenção em tudo e também na carta náutica para nos familiarizarmos com essa rota que, com certeza, será feita muitas vezes por nós.

A chegada em Loreto é bucólica – se você não olhar para o lado da Petrobrás J. Tem uma igrejinha linda e a ancoragem é feita numa pequena baía que é chamada de Saco de Loreto.

 

 

 

 

Loreto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bom ,chegamos, paramos, filamos uma bóia deliciosa que Neto e Tânia trouxeram e ficamos no Drakon batendo papo. Daqui a pouco chega outro conhecido, o Bandeira, e lá vamos nós conhecer seu Delta 32 cheio de invenções (até descobri de onde vem o talento de um designer de objetos conhecido meu e muito premiado, que é filho dele, Manuel Bandeira).  Depois de mais uns papinhos Mamá ficou com soninho e nós também. Fomos para o Memê, ancoramos um pouco mais longe e ficamos ali, lendo um pouquinho e curtindo aquele lugarzinho diferente.

 

6 horas da manhã e a galera (Bob e Mariana) já estão a mil. Um barco não tem muitos cômodos, quando um acorda, desista de dormir!

 

Dia lindo de sol, uns mergulhos, uns papinhos e voltar para Salvador. O vento e maré estarão contra, Neto nos disse que a velejada não seria das mais fáceis, é melhor ir motorando um pouco...pelo menos até a metade do canal, façam o que eu faço...

 

Assim que saímos da ponta da Ilha dos frades, Neto levanta a Genoa e nós fomos na cola dele. Como não conseguiu nos ligar no celular, e diante da visível ansiedade que o Bob estava de velejar, ele decidiu que iríamos na vela mesmo.

 

 

Bom, o que posso dizer dessa velejada?

 

Não foi nada agradável. O mar estava difícil para a nossa inexperiência. Bob estava no leme e eu na proa, quando íamos cambar eu não tinha força suficiente para puxar os cabos pois o vento estava forte. Com o vento e maré contra, tínhamos que cambar muitas vezes e eu fui ficando cansada e um pouco tensa, pois Mamá estava dormindo (é claro) no cockpit sem muita segurança. O Drakon foi se distanciando e a tensão aumentava pois não conseguíamos fazer as bóias e poderíamos estar passando em lugares rasos. Depois de algumas cambadas mau dadas o Bob me pediu para ir para o leme e aí é que a coisa piorou, pois eu nunca tinha experimentado o leme nessas condições, minha tensão me fez esquecer a literatura, Bob falava para orçar e eu arribava, o barco rodava, enfim, fomos nocauteados pela minha inexperiência e tensão (muito mais do que o Bob que estava tranqüilo e seguro o tempo todo). Ligamos o motor – que alívio – e nos aproximamos do Drakon.

No final, foi tranqüilo, a tensão passou e levantamos a vela novamente até o canal de Aratu.

 

Conclusões da velejada:

1-       temos que treinar mais sozinhos para manter a sincronia nessas condições. Eu, o leme, Bob a proa. A cambada deve ser um pouco mais lenta.

2-       temos que estudar melhor a rota que vamos fazer.

3-       temos que imaginar um modo da Mariana ficar mais segura quando está dormindo, e quando está acordada, principalmente.  Criança não gosta de usar colete nem cinto – se alguém tiver uma dica, aceito sugestões.

4-       mesmo assim, estamos loucos para ir de novo, velejar é muuuiiiito bom!

 

Memê no seco

 

Pois é, dessa vez não tem aventura pra contar. Barco no seco significa que você vai gastar dinheiro e ainda por cima não vai velejar.  Depois da nossa deliciosa viagem de São João, o barco subiu – consertar motor, trocar o nome (agora é Memê mesmo!), fazer polimento, regular o leme, trocar redinha...Agora nosso memê está todo lindinho...

 

Mesmo sem poder sair  - pois o motor ainda tem que passar por uma regulagem  e a pessoa que faz isso não pôde – resolvemos passar o domingão no barco e ficar vendo a regata de duplas .

 

Chegamos no barco e ficamos por ali, arrumando coisas e vendo a galera se preparar para a regata....foi dando vontade de velejar...nossos amigos regateiros passaram por nós em direção à bóia de largada que estava na entrada do canal . Resolvemos sair sem motor mesmo, não sabíamos direito o percurso da regata, então saímos devagar e observando a largada para não atrapalhar. Quando nos demos conta, todos os veleiros da regata estavam vindo em nossa direção, não sabíamos que iríamos ficar bem no meio ! Foi engraçado, estávamos totalmente boiando, sem vento nenhum, e todos aqueles barcos desviando da gente (parecia que o  vento estava só nos barcos deles).  Depois disso, entrou um ventinho e conseguimos ficar por lá, velejando sem atrapalhar mais ninguém. Velejadinha boa, velocidade 5 nós, Mariana cochilando no cockpit...O Bob está ótimo, super seguro. Na volta pegamos a poita só no vento, sem medo.

 

Vimos a chegada da regata e, prá variar, nossos amigos se deram bem: Zé e Xico estavam no veleiro Táta e ...Meninas no comando ! Dani e Táta no Puck, se deram super bem também, deixaram vários marmanjos para trás . E na última regata antes dessa elas ganharam – dessa vez com o auxílio dos maridos que estavam dando uma força – Zé caiu do barco, se segurou na corda, subiu e mesmo assim as meninas ainda ganharam a regata. Imaginem a cena, Zé pendurado no barco e Táta no leme, nem parou pra socorrer ...Moral da história: Você perde o marido mas não perde a regata! Dá-lhe meninas! To esperando as fotos viu Táta?

 

 

 Ficou lindinho né?

 

 

Essa dormidinha sempre me dá inveja...

São João

Finalmente fizemos o tão esperado cruzeiro de São João. Estávamos super ansiosos por esse primeiro passeio de verdade com o Memê.

Os preparativos foram bem trabalhosos. Principalmente para o Bob que é quem lida com os parafusos do barco - isso significa, motor, velas, estaiamento, cabos e mais um monte de coisas que a gente tem que ir fazendo quando compra um barco antiguinho (o nosso deve ter de 25 a 30 anos). Ele está curtindo fazer tudo isso, o problema é encaixar com um monte de trabalho, pacientes prá atender e 2 UTI´s cheias...enfim...eu também não podia ajudar muito. Primeiro porque, nas funções que cada um de nós tem no barco, os parafusos ficaram com o Bob (e menino sempre acha que parafuso é coisa de menino) e segundo porque fui para Sao Paulo a trabalho e só cheguei no dia de partirmos.

Preparando a Partida

A minha função era preparar o cardápio de bordo para os 4 dias que ficaríamos no mar. Como eu não estava em Salvador, não tive tempo nem de pensar além de também não saber direito o que comprar pois no nosso barco a geladeira é pequena e temos que echê-la de gelo, então não cabe muita coisa. O espaço também é restrito para mantimentos, água, enfim, tudo tem que ser bem pensadinho.

O Bob me pegou no aeroporto às 12:30 de quarta-feira (22 de junho), os planos eram de saírmos na quinta de manhã, então sugeri comprarmos todos os mantimentos, arrumar as coisas e irmos dormir no barco, assim já estaríamos lá na quinta de manhã bem cedo. A ansiedade estava a mil, o Bob mal conseguia raciocinar :).

Passamos no mercado, compramos o que vimos pela frente, e o que eu imaginava pudesse ser fácil de fazer e bom de comer. Odeio comida gororoba, miojo não é o meu prato predileto e também faço a linha alimentação saudável, então fui meio na louca comprando um pouco de frutas e verduras, massa, pães, frios, sucos, cereal e ok, vamos nessa! (a Mariana também é fácil, come de tudo e, essa sim, adora um minojo!)

Em casa foi tudo rápido, um banho, uns biquinis na mala e o Bob na minha orelha: - Vamos! Bóra! Tá na hora!

Tudo pronto, pegamos o Roque na casa dele e partimos para nossa aventura.

O roteiro já havia mudado um pouco, achamos que o Rio Paraguaçú era demais para a primeira viagem com a Mamá, então já havíamos decidido explorar um pouco a Baía de Todos os Santos.

Chegamos no barco e foi só arrumação. Enfiar tanta tralha dentro daqueles armarinhos parecia impossível mas em pouco tempo percebi que um barco tem muito mais buracos do que a gente imagina (no bom sentido).

Acho que todos dormimos mal. A ansiedade, misturada com um ambiente estranho, alguns pernilongos e uma pessoa que mal conhecíamos no barco fez com que a nossa noite não fosse das melhores. Foi uma longa noite mal dormida. Às 6 da manha estávamos todos em pé, preparando a saída. Bob tinha esquecido a carta náutica da Baía, teve que ir em casa buscar. O Roque ficou arrumando coisas no motor, tem que encher os tanques de água, tirar coisas, arrumar, ver...UFA! Lá vamos nós rumo a Itaparica , saindo lá pelas 10 da manhã....

Salvador-Itaparica

Foi uma velejada linda! Vento bom (de través, eu acho) um solzinho gostoso e ...começamos nosso curso intensivo de navegação a bordo do nosso barco. Eu já tinha escrito antes que o Roque é Skipper. Sabe tudo e foi disposto a nos ensinar. A Mariana adorou o balanço do mar, cada vez que começava, o soninho batia e ela dormia feito anjo, deu até inveja das sonequinhas que ela tirou no cockpit, com um travesseirinho e lençol, tomando aquele ventinho gostoso do mar. Em alguns momentos ficamos sem vento, o mar estava um pouco agitado e deu prá perceber que mesmo dentro da Baía de Todos os Santos o mar pode ser difícil e velejar ali é bem diferente do que na Baía de Aratu, que é uma piscina.

Foi emocionante ver Itaparica chegando. Até então, eu só tinha chegado ali pelo Ferry Boat que pára em Bom Despacho (um lugar bem feinho). Então ver aquela cidadezinha lindinha, sol de inverno, maré baixa, chegando...acho que não choramos porque o Roque estava a bordo. Deu prá ver o nó na garganta do Bob causado pelo reencontro dele com a infância - o lugar e os sonhos. Que lugar lindo!

Ancoramos junto ao pier que tem lá. Um lugar com toda a estrutura para o fundeio de embarcações. o Zé nos emprestou seu botinho e o motor, assim ficou fácil o embarque e desembarque nos lugares. No final da tarde fomos passear num banco de areia (paradise is here!) e andamos de botinho vendo os barcos que estavam por lá. Tinha um bem estranho, com uma bandeira que não soubemos identificar - mais tarde estávamos no nosso barco e ouvimos uma voz com sotaque britânico dizendo  - I bet you were asking yourselves what flag is that! Era a voz de um senhor Escocês (a cara do Sean Conery) super simpático que veio da Namíbia (sim, a bandeira era da Namíbia) com sua esposa Alemã. Eles estão há 2 meses viajando pelo Brasil - que aventura, que inveja!

À noite passeamos pela orla da cidade que, não fosse por uma construção recente de um flat tipo um trombolho no lugar errado, pareceria uma cidadezinha do século passado.Conseguimos com uma galera que estava pescando siri umas peles de frango e voltamos para o barco prá tentar pegar siri também (o Bob tinha passado numa loja de pesca e adquirido todos os apetrechos necessários e desnecessários  - a Mariana estava ansiosa para pegar um). Não deu siri nenhum, mas dormimos feito anjinhos, felizes por estarmos ali.

 

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